Índios e fazendeiros se unem para preservar o Rio Xingu


Márcio Santilli, coordenador da campanha Nascentes do Rio Xingu, discursa na abertura do evento.

Começou, hoje (25/10), no município de Canarana, localizado no leste do estado do Mato Grosso, a 807 quilômetros de Cuiabá, o Encontro Nascentes do Xingu, com a presença de representantes dos governos municipal, estadual e federal, de proprietários rurais, assentados, sindicatos de agricultores e de trabalhadores, diversas organizações da sociedade civil e quase uma centena de representantes de grupos indígenas.

O objetivo do encontro é o de chamar a atenção para a situação das nascentes do Rio Xingu, que vêm sendo prejudicadas pelo corte desordenado das matas ciliares, e mobilizar os diferentes setores sociais para uma atuação conjunta que promova a recuperação das áreas devastadas e a preservação dos trechos ameaçados. É a primeira vez que índios, grandes e pequenos agricultores, e políticos dos municípios da Bacia do Rio Xingu, do Estado do Mato Grosso e do Governo Federal, se juntam para discutir alternativas de crescimento econômico sustentável e com manejo responsável dos recursos hídricos existentes na região.
A situação crítica das cabeceiras do rio Xingu ameaça a capacidade produtiva e a qualidade de vida não só dos mais de 10 mil índios que habitam a região, mas também de 450 mil não-indígenas de 31 municípios do Mato Grosso. “Para nós, a simples realização do evento, com a participação de setores historicamente resistentes ao discurso ambientalista, já é uma vitória”, avalia Vicente Puhl, presidente do Fórum Matogrossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad), um dos organizadores do evento. A entidade congrega 38 organizações e há 12 anos atua pela preservação do meio ambiente mato-grossense. Vicente afirma que a aplicação de herbicidas e a monocultura ostensiva, que marca grande parte da agricultura regional, se respaldam no discurso predominante tanto no governo estadual quanto no federal, no qual o agronegócio é o principal vetor do crescimento econômico do País e que deve ser incentivado a todo custo. “Estamos aqui para lembrar que há alternativas orgânicas e ecológicas que devem ser estimuladas porque também apresentam ótimos resultados econômicos “.

A parte de cada um

As lideranças indígenas presentes no primeiro dia do encontro também chamaram os grandes produtores agrícolas do estado para assumir sua parcela de responsabilidade na recuperação e preservação das cabeceiras do Xingu. “Chegou a hora dos homens brancos verem outra cor além da cor do dinheiro: a da natureza”, afirmou Makupá Kaiabi, presidente da Associação Terra Indígena Xingu (Atix). O cacique disse que seu povo está disposto a contribuir com os fazendeiros e agricultores no processo de reflorestamento das nascentes, coletando sementes e fiscalizando áreas em perigo. E apóia a idéia dos fazendeiros de abrir pequenas estradas ao longo das nascentes para facilitar a fiscalização. “Há quatro anos, as lagoas do Parque estão ficando cada vez mais secas e com menos peixes, o rio está mais baixo do que nunca. Temos que lutar agora porque o Xingu é nossa casa e é dele que tiramos a saúde de nosso povo”.

O cacique Cipassé Xavante, da aldeia Wederã da Terra Indígena Pimentel Barbosa, comemorou a realização do Encontro. “É importante pela união de vários atores e pela disseminação das informações. Temos que perceber que a falta d’água vai afetar a todos, não apenas aos índios”Cipassé acredita que existe um tabu que começa a ser derrubado com a campanha de preservação. “gente que não quer tocar no assunto porque acredita apenas na força das máquinas e agrotóxicos. Agora eles vão perceber que no futuro a água doce vai valer mais do que qualquer insumo químico”.

Os pecuaristas e agricultores proprietários de áreas que foram abertas há mais tempo observam que muitas nascentes e igarapés secaram alguns anos após o corte da mata ciliar. O assoreamento dos rios aumentou, diminuindo a quantidade de água disponível para consumo e irrigação e dificultando a navegação. A destruição das matas ciliares provoca um grave problema ambiental que afeta a produção de água, a capacidade produtiva das propriedades rurais e, conseqüentemente, as condições de vida da população local.

“É sempre bem-vinda a iniciativa de chamar a população à participar quando se trata da questão ambiental” avalia o secretário de Meio Ambiente do Estado de Mato Grosso e presidente da Fundação Estadual do Meio Ambiente (FEMA), Moacir Pires. “É dividir a responsabilidade com todos os que vivem no meio ambiente”. Ele conta que desde 2003, o governo do estado desenvolve um programa de preservação estratégica das matas ciliares (PEPE). “Herdamos 1 milhão e 34 mil hectares de áreas de proteção permanente degradadas e iniciamos um trabalho de conscientização e orientação da população”. O secretário explica que está em curso uma ação concreta de trabalho de recuperação. Consiste em reunir grupos de produtores em um determinada propriedade e explicar a eles como fazer para recuperar as matas ciliares, ensiná-los a identificar mudas e isolar a área em questão. No caso dos pecuaristas, eles são orientados a fazer bebedouros para o gado e isolar com cerca a extensão a ser reflorestada.

Espíritos desarmados

“Os produtores rurais são sensíveis ao problema ambiental, mas precisam de crédito a juros baratos para financiar iniciativas de reflorestamento” avaliou, durante a abertura do Encontro Nascentes do Xingu, Homero Pereira, secretário de Desenvolvimento Rural de Mato Grosso e presidente da Federação da Agricultura e da Pecuária do Mato Grosso (Famato). Em sua opinião, a união entre produtores, índios e ambientalistas pode servir para conseguir do governo federal e dos organismos internacionais os recursos necessários ao reflorestamento. Pereira entende que a manutenção e a recuperação das matas precisam ter viabilidade econômica. “O evento pode criar um comprometimento entre os segmentos envolvidos, mas um belo diagnóstico, sem ações concretas e viáveis financeiramente, não vai resolver nosso problema”, conclui.

Pereira considera ainda que o encontro poderá “desarmar alguns espíritos” e desmistificar a relação entre ambientalistas e produtores rurais. “Antes eles eram vistos como inimigos e tivemos situações traumáticas, mas agora devem ser parceiros. Na área do meio ambiente, já está provado que apenas o controle e a repressão do poder público não funcionam. É preciso estabelecer parcerias entre o Estado e a sociedade”. Isso já está ocorrendo, por exemplo, no município de Primavera do Leste. “Com o apoio dos fazendeiros da região, a comunidade criou uma ONG que tem prestado assistência técnica a algumas aldeias indígenas”, diz o secretário.

Assistência técnica para reflorestar

Os trabalhadores rurais e pequenos proprietários da Bacia do Xingu lembram que precisam de assistência técnica e cursos de capacitação para aprender a preservar e recuperar as matas ciliares e encostas da região. Esse é o recado dado por alguns sindicatos presentes ao encontro. “Existe uma série de proibições, daquilo que não devemos fazer, mas precisamos saber o que temos de fazer”, afirma Eloísa Pereira Leite, do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Água Boa.

Ela cita algumas informações indispensáveis para que os moradores de assentamentos da região consigam preservar as nascentes: “Precisamos saber, por exemplo, quais espécies devem ser plantadas e quais podem ser derrubadas”. Para Eloísa, o Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) já tem linhas de financiamento especiais para reflorestamento, mas o governo não está disponibilizando os recursos. “Precisamos de ajuda para liberar o dinheiro”. Eloísa lembrou ainda que o trabalho de recuperar matas ciliares precisa ser feito em larga escala, com financiamento apropriado, sob risco de se jogar dinheiro fora. “Cinco mil mudas, por exemplo, não são suficientes para recuperar nem um quilômetro de mata”.

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