A professora Severiá Karajá, tesoureira da Associação Aliança dos Povos do Roncador, fala sobre o Encontro de Canarana, em entrevista concedida à reportagem do ISA durante o evento, realizado de 25 a 27 de outubro, em Canarana, MT.
Na maioria dos povos indígenas, as negociações políticas com o homem branco são comandadas por aqueles líderes com maior facilidade de se comunicar em português, com maior familiaridade com a cultura e sociedade brancas. Invariavelmente, são homens. Severiá Idiorê Karajá foi a única mulher a sentar-se ao lado das lideranças no grupo de trabalho destinado aos índios no Encontro Nascentes do Xingu. Quando as propostas das comunidades indígenas foram apresentadas aos representantes de fazendeiros e da agroindústria, ela tomou a palavra, defendeu a posição dos povos indígenas e conseguiu, ao mesmo tempo, desarmar os espíritos de seus interlocutores. Severiá é professora na aldeia Wederã, na Terra Indígena Pimentel Barbosa, e tesoureira da Associação Aliança dos Povos do Roncador. Casada com o cacique Cipassé Xavante, mesmo pertencendo a uma outra etnia, é respeitada na comunidade e parece ter assumido papel importante nas discussões em Canarana não apenas por ser formada em letras modernas pela Universidade Católica de Goiás (UCG), mas também por sua habilidade e capacidade de conciliação. Durante o encerramento do encontro de Canarana ela concedeu ao repórter Oswaldo Braga de Souza, do ISA, a seguinte entrevista.
Qual a sua avaliação geral dos debates?
O evento foi importante para uma primeira conversa, para diminuir tensões e encontrar pontos de interesse comum. É bom até para as lideranças de parte a parte se sentarem junto e se conhecerem.
Você achou difícil esse primeiro encontro com os produtores rurais?
Existe muito preconceito com a gente. Os fazendeiros acham que não produzimos nada. A relação não tem sido de diálogo. Não existem políticas de desenvolvimento que garantam a diversidade cultural e o respeito às diferenças. Isso nunca foi feito. Mas acho que encontros como esses podem criar um clima melhor. Acho que existe predisposição para o diálogo. É preciso diálogo entre todos os setores.
Que divergências você conseguiu identificar?
Dependendo do interlocutor, ele pode dizer que existe ou não degradação, que a situação está melhor ou pior… Então, o encontro foi bom também para nivelar o diálogo e o discurso, socializar as informações. O debate vai continuar. Também precisamos mudar alguns conceitos: o que é “desenvolvimento” e o que é “desenvolvimentismo”, por exemplo? Será que a solução é continuar abrindo grandes terras? Isso não gera emprego.
Quais os desafios para a campanha ´Y Ikatu Xingu a partir de agora?
As leis não são cumpridas. A lei é letra morta. É preciso saber primeiro quais as leis que não estão sendo cumpridas. E a fiscalização? Quanto mais recursos para isso melhor. Em segundo lugar, conseguimos construir alguns consensos mínimos e aí temos de dividir a ação dentro de cada segmento e entre todos os segmentos. Em outros casos, será preciso rediscutir dentro de cada setor para avaliar a viabilidade (questões técnicas, o papel de cada grupo, a articulação com o governo). Também precisamos de saneamento básico, tratamento de esgoto. Acredito que isso seja mais simples. Mas é bom deixar claro: em todos esses casos, não adianta um bom diagnóstico técnico sem pressão política efetiva.
Uma mulher na linha de frente em Canarana
A professora Severiá Karajá, tesoureira da Associação Aliança dos Povos do Roncador, fala sobre o Encontro de Canarana, em entrevista concedida à reportagem do ISA durante o evento, realizado de 25 a 27 de outubro, em Canarana, MT.
Na maioria dos povos indígenas, as negociações políticas com o homem branco são comandadas por aqueles líderes com maior facilidade de se comunicar em português, com maior familiaridade com a cultura e sociedade brancas. Invariavelmente, são homens. Severiá Idiorê Karajá foi a única mulher a sentar-se ao lado das lideranças no grupo de trabalho destinado aos índios no Encontro Nascentes do Xingu. Quando as propostas das comunidades indígenas foram apresentadas aos representantes de fazendeiros e da agroindústria, ela tomou a palavra, defendeu a posição dos povos indígenas e conseguiu, ao mesmo tempo, desarmar os espíritos de seus interlocutores. Severiá é professora na aldeia Wederã, na Terra Indígena Pimentel Barbosa, e tesoureira da Associação Aliança dos Povos do Roncador. Casada com o cacique Cipassé Xavante, mesmo pertencendo a uma outra etnia, é respeitada na comunidade e parece ter assumido papel importante nas discussões em Canarana não apenas por ser formada em letras modernas pela Universidade Católica de Goiás (UCG), mas também por sua habilidade e capacidade de conciliação. Durante o encerramento do encontro de Canarana ela concedeu ao repórter Oswaldo Braga de Souza, do ISA, a seguinte entrevista.
Qual a sua avaliação geral dos debates?
O evento foi importante para uma primeira conversa, para diminuir tensões e encontrar pontos de interesse comum. É bom até para as lideranças de parte a parte se sentarem junto e se conhecerem.
Você achou difícil esse primeiro encontro com os produtores rurais?
Existe muito preconceito com a gente. Os fazendeiros acham que não produzimos nada. A relação não tem sido de diálogo. Não existem políticas de desenvolvimento que garantam a diversidade cultural e o respeito às diferenças. Isso nunca foi feito. Mas acho que encontros como esses podem criar um clima melhor. Acho que existe predisposição para o diálogo. É preciso diálogo entre todos os setores.
Que divergências você conseguiu identificar?
Dependendo do interlocutor, ele pode dizer que existe ou não degradação, que a situação está melhor ou pior… Então, o encontro foi bom também para nivelar o diálogo e o discurso, socializar as informações. O debate vai continuar. Também precisamos mudar alguns conceitos: o que é “desenvolvimento” e o que é “desenvolvimentismo”, por exemplo? Será que a solução é continuar abrindo grandes terras? Isso não gera emprego.
Quais os desafios para a campanha ´Y Ikatu Xingu a partir de agora?
As leis não são cumpridas. A lei é letra morta. É preciso saber primeiro quais as leis que não estão sendo cumpridas. E a fiscalização? Quanto mais recursos para isso melhor. Em segundo lugar, conseguimos construir alguns consensos mínimos e aí temos de dividir a ação dentro de cada segmento e entre todos os segmentos. Em outros casos, será preciso rediscutir dentro de cada setor para avaliar a viabilidade (questões técnicas, o papel de cada grupo, a articulação com o governo). Também precisamos de saneamento básico, tratamento de esgoto. Acredito que isso seja mais simples. Mas é bom deixar claro: em todos esses casos, não adianta um bom diagnóstico técnico sem pressão política efetiva.
ISA, Oswaldo Braga de Souza.