Povos do Xingu firmam posição e obra no rio Culuene (MT) é suspensa

Mais de 200 índios de diversas etnias do Parque Indígena do Xingu compareceram à reunião com o governador do estado do Mato Grosso, Blairo Maggi, no sábado 13 de novembro, em Canarana (MT), para afirmar que não aceitarão a construção da barragem Paranatinga II, situada no Rio Culuene, um dos principais formadores do rio Xingu.

As lideranças índigenas presentes ao encontro no dia 13 – entre elas representantes das etnias Yawalapiti, Aweti, Kuikuro, Suyá, Yudjá, Kaiabi, Waurá, Mehinaku, Nafukuá e Kalapalo – informaram ao governador Blairo Maggi que o trecho de rio no qual a obra está sendo erguida é sagrado para os povos do Parque Indígena do Xingu. O local foi palco do primeiro Kuarup , a festa anual em homenagem aos mortos ilustres dos povos do Alto Xingu e é, hoje, importante referência da história cultural de todos os índios da região. Maggi disse que desconhecia o aspecto sagrado daquela parte do rio Culuene e determinou à empresa Paranatinga Energia Elétrica a paralisação imediata da obra.

“Até que seja feita uma avaliação se deve ser definitivamente paralisada ou não”, disse o governador. Na reunião, os índios distribuíram uma carta (veja box) na qual reiteram a disposição de lutar sem concessões pelo fim da obra e também expressam preocupação com o impacto ambiental gerado pela mesma. “São obras como essa que acabam com a vida dos rios. Temos que parar com isso antes que não tenha mais peixe no Xingu”, alerta Makupá Kaiabi, presidente da Associação Terra Indígena Xingu, uma das organizações que encabeçam a campanha ‘Y ikatu Xingu. No domingo 14, alguns índios ainda visitaram o canteiro de obras e se certificaram que o maquinário estava realmente recolhido. A visita só foi possível após a suspensão pelo Tribunal Regional Federal (TRF) de uma liminar expedida pela Justiça Federal de Cuiabá que impedia os índios de se aproximarem do local da barragem. A liminar havia sido acionada pela empresa Paranatinga. Na quarta-feira 17, em nova reunião entre o governador Maggi, representantes da Fundação Nacional do Índio (Funai) no Mato Grosso, membros do Ministério Público Federal e advogados da empresa, ficou decidido que a Funai elaborará o estudo antropólogico/cultural que dimensionará o impacto da barragem sobre as comunidades xinguanas. O levantamento será decisivo para a continuidade – ou suspensão definitiva – do empreendimento. Nos próximos dias, diretores da Paranatinga e da Funai definirão o prazo para a conclusão do relatório. O documento deverá ser anexado ao licenciamento ambiental concedido pelo governo do estado. O licenciamento, bem como toda a documentação que regulamenta o empreendimento, por sua vez, foi remetido à própria Funai e ao Instituto Nacional do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama). A barragem está sendo construída a apenas dois quilômetros da Reserva Ecológica Estadual do Rio Culuene, em território histórico dos povos xinguanos.

“Os índios sempre estiveram lá”, afirma o antropólogo Carlos Fausto, do Museu Nacional do Rio de Janeiro. O antropólogo explica que o levantamento dos mitos indígenas já existe – e os respectivos lugares aos quais estão associados – na região do rio Culuene. O território também é rico em vestígios arqueológicos das antigas populações que ali viviam.

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