Técnicas de restauração florestal e processos de adequação ambiental de propriedades rurais estão em pauta no curso “Restauração ecológica e adequação ambiental” que o Instituto Socioambiental (ISA) está promovendo em Canarana, Mato Grosso. Entre os participantes, estão mais de 20 profissionais que trabalham com projetos de restauração florestal em diversos municípios da região da bacia do Rio Xingu.
O plantio mecanizado de florestas, técnica inovadora aplicada pelo ISA e outras instituições parceiras nos projetos de restauração florestal realizados no âmbito da Campanha Y Ikatu Xingu, é um dos temas que mais despertam o interesse dos participantes. “Estou com 26 hectares de Áreas de Proteção Permanente (APPs) desmatadas, que precisam ser restauradas. Já isolamos as nascentes para iniciar o processo de regeneração natural e vamos fazer a restauração florestal com o plantio de sementes nativas com lançadeira. Isso vai reduzir muito os nossos custos e, pelo o que eu pude ver no curso, é uma técnica que dá muito certo”, conta Wagner Ferreira Ataides, técnico agrícola da Agropecuária Três Flechas, no município de Confresa, MT.
O plantio mecanizado de florestas consiste em utilizar máquinas como a plantadeira e a lançadeira de sementes, usadas no plantio de soja, milho e outras espécies agrícolas, para plantar espécies nativas. A técnica permite a restauração florestal de áreas mais extensas a um custo até quatro vezes mais baixo que o plantio de mudas. Além disso, o resultado fica mais parecido ao que ocorre naturalmente no processo de regeneração natural.
Passo a passo
A assistente técnica em pesquisa e desenvolvimento socioambiental do ISA, Natalia Guerin, uma das facilitadoras do curso, explica que ele foi dividido em três módulos para possibilitar uma melhor compreensão do processo de restauração florestal. “No primeiro módulo, realizado em setembro, nós vimos a parte teórica das etapas necessárias para a implantação de projetos de restauração florestal e adequação ambiental. Agora em outubro, o grupo partiu para a prática e fizemos o plantio mecanizado, com lançadeira e plantadeira de sementes, e também o plantio com mudas e discutimos sobre diferentes práticas para condução da regeneração natural. Em maio do ano que vem, teremos a oportunidade de ver os resultados dos plantios e fazer o monitoramento das áreas”.
O primeiro módulo, realizado de 20 a 22 de setembro, trouxe informações sobre o processo de adequação ambiental de propriedades rurais em Mato Grosso. O Cadastro Ambiental Rural (CAR) e os benefícios do MT Legal, programa de adequação lançado pelo governo estadual para facilitar a regularização. Os participantes puderam ainda fazer diagnóstico de áreas degradadas e conhecer as técnicas utilizadas na restauração florestal.
O segundo módulo foi realizado entre 12 e 15 de outubro e permitiu que os participantes do curso aplicassem o que aprenderam na prática. Técnicas de plantio de sementes com lançadeira e plantadeira, plantio de mudas e condução de regeneração natural foram executadas. O terceiro e último módulo será realizado em maio de 2011, quando os primeiros resultados das áreas em processo de restauração poderão ser observados e monitorados.
Parceria e troca de experiências
Rodrigo Junqueira, coordenador-adjunto do Programa Xingu, do ISA, afirma que a ideia é disseminar e multiplicar o trabalho e as experiências de restauração florestal realizadas no âmbito da Campanha Y Ikatu Xingu. “A necessidade de formar capacidades e valorizar talentos locais para enfrentar o desafio de restaurar o passivo ambiental da região foi a nossa maior motivação para promover o curso. Essa formação está sendo pautada, na realidade, com a participação de pessoas que estão diretamente ligadas à atividade. O aprendizado será maior quanto mais estiver relacionado à realidade de cada um na prática, e isso é um princípio que nos orienta”.
Josué Borges, gestor ambiental da empresa Vale do Araguaia, afirma que apenas a parceria entre os setores ambiental e rural irá solucionar o problema na região. “Eu sempre soube que o pecuarista e o agricultor não estão na contra-mão da restauração florestal. Nós estamos no mesmo sentido, pois todo mundo quer o progresso. O que a gente está vendo hoje no ISA é o início de uma parceria que beneficia todo mundo e que já deveríamos ter começado há muito tempo”.
Campanha Y Ikatu Xingu
Estima-se que 300 mil hectares de APPs (nascentes e beiras de rios) estejam degradadas na bacia do Rio Xingu, em Mato Grosso. Em cinco anos de trabalho, as organizações envolvidas na Campanha Y Ikatu Xingu colocaram em processo de restauração mais de dois mil hectares de APPs e Reservas Legais em propriedades rurais de 14 municípios mato-grossenses, por meio de condução de regeneração natural, plantio de mudas e semeadura direta de sementes.
A campanha é um movimento de responsabilidade socioambiental compartilhada em prol da recuperação e proteção das nascentes do Rio Xingu no estado de Mato Grosso. Foi criada em 2004, a partir da união de agricultores familiares, produtores rurais, comunidades indígenas, pesquisadores, organizações governamentais e não governamentais, prefeituras, movimentos sociais e organizações da sociedade civil – atores que enxergam o Rio Xingu e seus afluentes como um bem comum e que lutam por sua preservação.
* Ação realizada no âmbito do projeto Governança Ambiental e Produção Responsável – uma iniciativa das organizações The Nature Conservancy (TNC), Instituto Centro de Vida (ICV) e Instituto Socioambiental (ISA), com o apoio da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID). O projeto busca contribuir para a redução dos índices de desmatamento nos estados de Mato Grosso e Pará, fortalecendo os mecanismos de governança ambiental e incentivando a produção responsável nas indústrias da soja e da carne nos dois estados.
3 Comentários
Um programa importante onde poderia ser desenvolvida uma pesquis de avaliação da percepção ambiental dos envolvidos, nos moldes como a Federação da Agricultura do Estado do Espírito Santo, com o apoio do NEPA (grupo sem fins lucrativos), está realizando com os produtores ruirais do Estado.
Núcleo de Estudso em Percepção Ambiental / NEPA
roosevelt@ebrnet.com.br
Um interessante exemplo de como o diálogo entre diferentes setores da sociedade é possível. Saudações paulistas. Liviam Cordeiro
Que interessante esse trabalho! Estamos desenvolvendo um projeto semelhante em Uberaba/MG por meio de uma ONG criada recentemente e denominada Protege Ambiental, da qual faço parte. O projeto será desenvolvido na cabeceira da bacia do rio Uberaba que é uma APA municipal e onde está localizada a RPPN Vale Encantado. Nesta UC será desenvolvida parte do projeto que á a produção de essências florestais para recuperação de áreas degradadas.