Projeto de sequestro de carbono liderado por produtores rurais é lançado em Santa Cruz do Xingu, MT

Em 30 anos, 75 mil toneladas de carbono serão sequestrados por meio da restauração de 220 hectares de áreas degradadas em propriedades rurais

Fernanda Bellei, ISA

O sequestro de carbono para venda no mercado voluntário está saindo dos papéis e se tornando realidade pelas mãos de produtores rurais de Santa Cruz do Xingu, município mato-grossense localizado na Bacia do Rio Xingu. Em um arranjo inovador, o projeto Carbono das Nascentes do Xingu, lançado no dia 3 de maio, será liderado pela Associação Xingu Sustentável (AXS), criada pelos próprios produtores que precisam restaurar suas áreas degradadas e adequar suas propriedades para eliminar seu passivo ambiental e agregar valor aos seus produtos.

O projeto foi selecionado no edital do programa Natura Carbono Neutro, da empresa Natura, que está comprando créditos de carbono para neutralizar suas emissões. A proposta foi apresentada pelo Instituto Socioambiental (ISA) em parceria com as Organizações Não-Governamentais (ONGs) Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora) e Instituto Centro de Vida (ICV). Ingo Marmet, presidente da AXS, fala sobre a decisão de criar a associação. “Criamos a associação para enfrentar esse desafio. Eu fui eleito presidente e aceitei porque acredito muito neste trabalho. É uma maneira de adequar nosso negócio e agregar valor ao nosso produto”.

Ingo Marmet, presidente da AXS, discursa durante lançamento do projeto Carbono das Nascentes do Xingu, em Santa Cruz do Xingu. Foto Fernanda Bellei

Questionado sobre o potencial de Santa Cruz do Xingu para levar o projeto em frente, Marmet afirma: “Nosso município tem potencial de sobra para desenvolver este trabalho. Os produtores daqui estão engajados e querem fazer a coisa andar. Temos a necessidade de fazer a adequação ambiental e agora temos os recursos necessários para fazer o trabalho”.

André Villas Boas, coordenador do Programa Xingu, do ISA, destaca o caráter inovador do projeto. “A inovação está no arranjo, na articulação de um conjunto de produtores rurais, formalizado na constituição da Associação Xingu Sustentável, voltada a organizar o trabalho de restaurações das áreas desses produtores e entregar os créditos correspondentes. É um dos primeiros projetos dessa natureza na Amazônia e no estado de Mato Grosso”. O ISA participa do projeto no âmbito da Campanha Y Ikatu Xingu.

Talia Bonfante, técnica do Programa de Clima do Imaflora, explica que, devido a complexidade, esse tipo de projeto geralmente é liderado por organizações não governamentais. “Esta é a primeira vez que entro em contato com um projeto de sequestro de carbono em que uma associação é a líder. Isto é muito positivo, pois faz com que o envolvimento e o comprometimento dos produtores no processo de restauração e manutenção das áreas seja maior”.

Fabiana Philipi, coordenadora de Sustentabilidade da Natura, afirma que a formação da Associação Xingu Sustentável é uma importante inovação tanto para a região como para o Programa Carbono Neutro da Natura. “A associação reafirma o viés social do programa através da articulação dos produtores que terão a oportunidade de conhecer o mecanismo de créditos de carbono e aprender as técnicas de reflorestamento e manutenção com o apoio do ISA”. Ela ressalta que o engajamento dos produtores reforça a importância do combate às mudanças climáticas. “Acreditamos que esta é uma semente que está sendo plantada e que com certeza servirá de modelo para os demais produtores da região, contribuindo para o combate às mudanças climáticas e favorecendo a biodiversidade da região”.

Fabiana Philipi, coordenadora de sustentabilidade da Natura, durante lançamento do projeto Carbono das Nascentes do Xingu, em Santa Cruz do Xingu. Foto Fernanda Bellei

Preservação pelas mãos que produzem
Um dos produtores associados da AXS é Antonio Aguinaldo Lopes, também conhecido como Guina, proprietário da fazenda Vale dos Sonhos, que tem 250 hectares e 22 hectares de Áreas de Preservação Permanente (APPs) para restaurar. Ele é pecuarista e afirma que o mercado está começando a exigir a adequação socioambiental da propriedade para comprar seu produto. “Terei que restaurar minha área degradada de qualquer maneira para continuar colocando meu produto no mercado, mas eu penso também na manutenção da água na fazenda. Tenho dois córregos que passam pela minha área e quero que eles sejam preservados, pois a água é um insumo importante para a produção”.

Guina veio de Goiás há dez anos e comprou a fazenda, que já estava com as APPs degradadas. “Comecei a reflorestar com mudas de pequi, mas como não pode se pode restaurar só com uma espécie, eu parei”. Ele explica se aproximou do projeto porque já conhecia a experiência de Carlito Guimarães, presidente da Associação de Fazendeiros do Vale do Araguaia e Xingu (ASFAX), que colocou 20 hectares de APPs em sua fazenda Santa Adélia em processo de restauração, com a assessoria do ISA. “Todo mundo conhece o trabalho que foi feito na propriedade do Carlito, então, quando surgiu a oportunidade, decidi aceitar”.

APP em processo de restauração florestal na fazenda Santa Adélia, em Santa Cruz do Xingu. Foto Fernanda Bellei

Como funciona
- O “Carbono das Nascentes do Xingu” prevê a redução de emissões de gases de efeito estufa por meio da restauração de APPs degradadas. A empresa Natura irá comprar esses créditos de carbono para compensar suas emissões;
- Os produtores rurais interessados em ter sua área degradada restaurada e vender os créditos de carbono se associam à AXS. Eles se comprometem a fazer a manutenção da área por 30 anos, para garantir que as 75 mil toneladas de carbono sejam seqüestradas;
- A restauração florestal das áreas é feita com a assistência do ISA, através de diversas técnicas, entre elas o Plantio Mecanizado de Florestas, em que sementes nativas são plantadas com maquinários agrícolas, como a plantadeira e a lançadeira de sementes;

De acordo com Natalia Guerin, bióloga do ISA, boa parte dos custos do produtor rural com a restauração do passivo é coberta com os recursos repassados pela Natura. “Os recursos cobrem as gastos com cercamento, plantio de sementes ou mudas, controle de capim e outras espécies invasoras. Estes custos podem chegar até R$ 10 mil para restauração de um hectare com plantio de mudas e R$ 4 mil com plantio de sementes, sendo que a maior parte desse valor é gasto com o cercamento das áreas. No caso do projeto de Santa Cruz do Xingu, por se tratar de áreas de pecuária, todas as APPs terão que ser cercadas”.

Natalia explica que a AXS estipulou que o projeto irá repassar os recursos para a restauração de 10 hectares por produtor. “Isso será encaminhado conforme a apresentação dos produtores, caso algum possua mais ou menos áreas, essa porcentagem será remanejada. Mas a idéia é atender todos os associados, ainda que minimamente, entre 2011 e 2012”.

O que é o mercado voluntário de carbono
De acordo com texto de Raul Telles do Valle e Erika Magami, no livro Desmatamento evitado (REDD) e povos indígenas, mercado de carbono é um termo genérico utilizado para denominar os sistemas de negociação de certificados de redução de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs). Os autores explicam também que o mercado de carbono é constituído, de um lado, pela oferta de créditos de carbono que se originam em atividades que levam à redução de emissões de GEEs ou da retirada de CO2 da atmosfera no caso de projetos florestais. De outro, é constituído pela demanda por esses créditos por parte de empresas ou governos que necessitam alcançar metas de redução de emissões, sejam elas obrigatórias em cumprimento ao Protocolo de Kyoto para países do Anexo 1 ou voluntárias.

Por isso, o mercado de carbono se divide em oficial e voluntário. A diferença reside basicamente no tipo de demanda por crédito de carbono. Ou seja: se de empresas que têm a obrigação legal de diminuir emissões, ou se são demandas de outras, que voluntariamente assumiram metas, mesmo não sendo obrigadas a isso por seus governos. O Protocolo de Kyoto da Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas foi adotado em 11/12/1997 e entrou em vigor em 16/2/2005.

Ao assumir metas voluntariamente, as empresas investem ou financiam projetos que apresentam como objetivo a redução da emissão de GEEs, como por exemplo, os projetos de eficiência energética, ou os que retiram carbono da atmosfera, como os projetos de restauração de áreas degradadas. Cada tonelada de dióxido de carbono (CO2) que deixa de ser emitida ou é reduzida corresponde a um crédito de carbono – instrumento financeiro negociável, que as empresas compram no mercado, na quantidade necessária para neutralizar as suas emissões ou financiam projetos que resultam na quantidade de créditos necessários para a neutralização.

Mapa de localização de Santa Cruz do Xingu.

Números de Santa Cruz do Xingu
- 10,5% da área do município é ocupada por Terras Indígenas (TIs)
- 16,4% da área do município é ocupada por Unidades de Conservação (UCs)
- 2,92% da área do município é ocupada por assentamentos
- 45,5% das áreas do município estão no Cadastramento Ambiental Rural (CAR)
- 45 mil hectares de APPs mapeadas (considerando áreas fora de TIs e UCs)
- 8 mil hectares de APPs degradadas (considerando áreas fora de TIs e UCs);

23 Comentários

  • Parabéns a todos que estão trabalhando sempre e cada vez mais para reflorestar nosso planetinha!

  • Agradecemos seu comentário e interesse pelo trabalho da Campanha Y Ikatu Xingu. Você também faz parte desta história! Mantenha contato.

  • Parabéns a todos que trabalham na adequação ambiental ,isso reforça a importância do combate as mudanças climáticas.

  • Agradecemos a participação de vocês, Lucio e Beatriz! Continuem acompanhando as ações da Campanha Y Ikatu Xingu!

  • Ola
    a coordenacao da 3 conferencia municipal de meio ambiente do municipio de pacaja,vem convidar esta instituticao para ministrar palestra para 300 proprietRIO de terras o qual desejam conhecer o projeto de sequestro de carbono,necessitamos de apoio o qual nos colocamos para mais esclarecimentos
    91-91613162

  • O unico meio de segurar o desmatameno ,principalmente,da AMAZONA é credenciando os produtores agricolas, á receberem ,ou melhor, ao sequestro de carbono para que as outras industrias emitentes de dioxido de carbdno pagarem aos sequestradores do referido dioxido de carbono.Eu como proprietario na Amazonia Legal, interessa-me em muito eses projetos, portanto pesso que entrem em contato com nos , dgo nos porque tenho amigos agricultores interessados no projeto de sequestro de crbono.
    Obrigado
    SERGIO CASTALDO

  • Recebemos proposta para negociar Crédito de Carbono para a nossa área de 55.000 ha no Rio Purus jurisdicionado ao municipio de Beruri/Am.
    O que podem, os senhores, ceder-nos de informações e orientações antes de assinatura de procurações ou contratos! Ou seria aconselhavel a consulta a um advogado credenciado a essas informações – se conhecerem (com escritorio em Manaus), passem-nos! Agradecemos.

  • solocito informaçlão, se vc’s Têm conhecimento de alguma empresa que esteja auxiliando produtores rurais na negociação de sequestro de carbono na amazônia em especial no pará

    Att.,

    M. Sc. Ronilson Santos
    Eng° Agrônomo

  • TAMBEM TEMOS INTERESSES PARA NEGOCIAR CRÉDITO DE CARBONO, POR ISSO SOLICITAMOS MAIS INFORMAÇÕES, DE PREFERÊNCIA DE ORGÃOS EM MANAUS, POIS ATÉ AGORA, SÓ OUVIMOS ESPECULAÇÕES SOBRE O ASSUNTO, E DE PESSOAS QUE PROCURAM AGRICULTORES APENAS PARA TIRAR PROVEITO DA SITUAÇAO, FALANDO QUE TEM CONTATOS COM EMPRESAS MULTINACIONAIS. E NÃO PASSAM DE UM BANDO DE BANDIDOS, ACHANDO QUE TODOS OS AGRICULTORES SAO IGNORANTES. TODOS OS DIAS TEMOS QUE PATRULHAR NOSSAS PROPRIEDADES DO LADRÕES DE MADEIRAS, E PESCADORES PREDADORES E SUAS TRAMALHAS, SÓ QUE ISSO GERA CUSTOS, QUE INCENTIVA A QUEM NAO TEM RECURSOS A VENDER POR EXEMPLO: UMA ÁRVORE DE 15 METROS POR 200,00 REAIS, SENDO QUE A MADEREIRA GANHA CERCA DE 10.000 OU MAIS NUMA ÁRVORE DE 200,00 REAIS. POR FAVOR AJUDE-NOS.

  • gostaria que me ajudasse pois tenho cerca se 600 alqueires de área para recuperar e fazer a negociação dos créditos caso tenha alguma empresa interessada em fazer negocio entre en contato ok.

  • Tenho interesse em receber informações a cerca do mercado de creditos de carbono aqui na amazonia.Estou direcionando as minhas atividades nesse sentido, e preciso de toda informação possível para fundamentar as minhas ações.
    obrigado.

  • Busco contato direto com os orgao responsaveis pelas compras de carbonos… Tenho muitas areas de hertares de florestas nativas tituladas…numa soma de mas 5000″hctrs..tituladas. Na regiao das proximidades do rio tapajos…proximo a santarem..contato.09392055415″. penso em nao desmatar… Mas se for o caso .tenho ver logo isso… Entre em contato..por gentilesa os orgao responsaveis pelo progeto q tem parceiria com Asx..

  • espetacular esta ideia. e se ela pegar para toda a amazonia brasileira? ivan

  • gentileza,pretendo ter maiores informação em sequestro de carbono, temos uma área de manejo florestal,incluir ela no plano de sequestro de carbono,grato.

  • Por favor, peço que me enviem detalhes, mais orientações acerca do Sequestro de Carbono bem como empresas sérias que façam este trabalho. Fico no aguardo

  • Parabéns ao Produtores Rurais de Santa Cruz do Xingu pela participação nesse projeto de sustentabilidade de nosso Planeta. Devemos propagar essa iniciativa a toda sociedade global. Ainda usufruímos de uma Mãe Terra saudável. Nossos filhos, netos e bisnetos também precisam dessa Mãe.
    João Evaldir Lisboa correa

  • GOSTARIA ENTRAR EM CONTATO COM EMPRESAS QUE COMPRAM CRÉDITO DE CARBONO E COM EMPRESA QUE FAZ O PROJETO PARA SEQUESTRO DE CARBONO.
    PODEM ME AJUDAR?

    ATT

    FERREIRA
    11-97387-7519(VIVO)
    SKYPE: FERREIRAFERGANI
    DISSE JESUS; EU SOU O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA. NINGUÉM VEM AO PAI, SENÃO POR MIM.

  • Gostaria entrar em contrato com empresa que compram credito de carbono pois tenho 2000hc de floresta plantada nativas, na regiao do Maranhao.
    grato, Jader

  • Por gentileza,gostaria de obter maiores informações de como fazer um projeto em sequestro de carbono pois, temos uma área de nascente para manejo florestal.Somos uma cooperativa e ocupamos uma área com várias nascentes e, gostaríamos de preservá-las. Porém, só ouvimos falar no projeto de carbono, mas não temos um modelo para nos basear na sua construção e nem sabemos como e para quem vender.

  • Bom dia, sou consultor imobiliário e tenho a seguinte área abaixo descrita:

    *** ÁREA DE 300 MIL HECTARES A VENDA PARA SEQUESTRO DE CARBONO NA AMAZÔNIA (TODA DOCUMENTADA E IMPOSTOS EM DIA). DETALHE: NECESSITANDO DE MENOS HECTARES TENHO TAMBÉM A VENDA ÁREAS DE 4.900 HECTARES NA MESMA REGIÃO.

    Fico no aguardo e coloco-me a disposição no que for necessário.

    “Sozinhos, podemos ir mais depressa, mas juntos, chegaremos mais longe”!

    Atenciosamente

    Rodrigo Leão
    Creci/MT 3821F
    + 55 (65) 9952-4807 whatsapp
    + 55 (65) 9634-1168 – vivo

  • Boa noite.
    Eu gostaria de saber como posso fazer um projeto de sequestro de carbono?

  • Olá, tudo bem? Meu nome é Ana Carolina e trabalho com Moda Feminina. Estou mudando meu foco para locar vestidos e fantasias na minha cidade, mas durante 5 anos trabalhei com meu marido na parte de e-commerce. Tenho uma lista com mais de 106 mil e-mails válidos de vendedoras da Avon, Natura e Mary Kay. E mais de 22 mil e-mails válidos com todos os dados como nome, telefone, bairro, cidade, estado e CEP de clientes que compram produtos pela internet (clientes cadastrados em nosso site). E garanto a validade de todos os e-mails.
    Muito obrigada.
    Ana Carolina

  • sou coletor de semente de arvores nativa e gostaria de saber mais sobre como funciona o sequestro de carbono .

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