Formação no Xingu capacita lideranças para diálogo intercultural

O objetivo do curso é contribuir para que indígenas que estão envolvidos em processos sociais, políticos, culturais e ambientais de suas comunidades possam aliar os conhecimentos tradicionais sobre seu território com os conceitos e temas relacionados às questões de sustentabilidade da terra indígena e suas relações com a sociedade envolvente.

Por Christiane Peres, ISA

Jovens lideranças xinguanas durante curso de formação

No mês de novembro, o Instituto Socioambiental (ISA) deu início ao curso de formação “Território e Serviços Socioambientais no Xingu”, na Coordenação Técnica Local (CTL) Diauarum, no Parque do Xingu (MT). A formação teve a participação de 25 jovens do Alto, Médio, Baixo e Leste Xingu, envolvidos direta ou indiretamente com o trabalho em suas associações. Eram agentes de saúde, “agentes” da política indígena, funcionários da Funai ou da Associação Terra Indígena do Xingu (Atix), caciques e tradutores. A proposta do curso, que terá duração de três anos, divididos em seis módulos e cinco entre-módulos, é contribuir para que indígenas que estejam envolvidos em processos sociais, políticos, culturais e ambientais em suas comunidades possam aliar os conhecimentos tradicionais sobre seu território com os conceitos e temas relacionados às questões de sustentabilidade da terra indígena e suasrelações com a sociedade envolvente. “O foco deste trabalho é ampliar a percepção dos participantes acerca das dimensões que compõem o território xinguano. A realidade do entorno, as diferentes percepções, contribuindo para a reflexão das diferenças que marcam o pensamento indígena e o pensamento dos brancos”, destaca Cristina Velasquez, assessora do Programa Xingu e responsável pela organização do curso.

Cada etapa do processo de formação terá de 20 a 30 dias de aulas, debates e atividades. Entre um módulo e outro, os participantes serão orientados para desenvolver atividades em suas comunidades e terão acompanhamento de equipe técnica do Programa Xingu. Entre os temas que serão trabalhados ao longo dos seis módulos estão: história, território e identidade; manejo e uso tradicional dos recursos naturais; contexto regional e seus impactos socioambientais no território xinguano; mudanças climáticas, serviços ambientais; patrimônio material e imaterial dos povos indígenas e estratégias de salvaguarda; direitos indígenas e políticas socioambientais; e desafios da sustentabilidade na terra indígena.

Korotowi Ikpeng fala sobre o histórico do Xingu

O primeiro módulo, que ocorreu entre os dias 7 e 24 de novembro, privilegiou a revisão histórica da formação do Xingu. O antes e o depois da criação do Parque do Xingu, por meio da história das línguas xinguanas, foram abordados pela linguista Bruna Franchetto. A linha do tempo dos acontecimentos políticos foi trabalhada pelo coordenador do Programa Xingu e secretário executivo do ISA, André Villas-Bôas; e as percepções sobre a circulação de pessoas e a organização sociopolítica desses povos, antes mesmo do território ser unificado com as 16 etnias que ali vivem, foram tema de calorosos debates conduzidos pela antropóloga Marcela Coelho, da UnB.

“É o início do trabalho. Momento em que conhecemos a turma, em geral constituída de pessoas jovens que estão à frente de processos políticos em suas comunidades. Mas o curso foi novidade para todos, para os índios e para a gente também. Não sabíamos como seria absorvido, mas a receptividade foi boa. E a proposta de trabalhar esse diálogo intercultural deu resultados interessantes. Foi importante perceber, por exemplo, que algumas passagens históricas recentes tinham uma lacuna na memória dos grupos. Enquanto passagens mais antigas estavam mais presentes. Mas isso será usado a favor, para trabalho nos entre-módulos, onde eles vão pesquisar o que foi debatido e trazer para os próximos encontros. Mas foi uma experiência interessante e o desafio continua agora”, avalia André Villas-Bôas.

Para Bruna Franchetto esse tipo de formação pode ajudar as jovens lideranças a desempenhar melhor seu papel no contexto atual. “O curso abordou temas que não são tratados normalmente, tratou de urgências importantes. Foi muito positivo ver o ISA se abrir para a questão linguística, pois os índios acolhem informações sobre língua com enorme entusiasmo e é um jeito de trabalhar conteúdos de forma mais profunda com eles. A dinâmica do curso, de forma geral, foi muito interessante, porque não infantilizou os índios. Eles exigem qualidade e imprimem seu estilo de aula.”

Pensar num processo de formação de educação não escolar com esse perfil se fez necessário a partir da intensificação nas relações entre os indígenas e a sociedade envolvente. “A quantidade e a velocidade das informações que chegam ao Xingu têm requerido uma participação intensa dos jovens xinguanos em diversas agendas e reuniões. Temas como a arqueologia, antropologia e linguística histórica contribuem significativamente para entender melhor aspectos do caminho de formação do território, da história de encontro desses povos no território xinguano e das estratégias sociopolíticas necessárias a serem desenvolvidas.

“O que vivenciamos aqui nesses dias é o que vamos enfrentar lá fora, nas negociações com o mundo branco, como muitos de nós já fazemos. Por isso, é importante melhorar o papel de tradutor oficial de seu povo, saber fazer isso com qualidade e perceber que nunca estamos sozinhos, estamos com o espírito de nossas lideranças tradicionais”, afirma Winti Suya, novo presidente eleito da Atix.

“Hoje, o mundo branco está falando diretamente com a gente. Acho muito importante participar dessa formação, pois a gente precisa cuidar do nosso território de maneira diferente, pois o rio é o nosso mercado, a nossa mata é verde, nem amarela e nem vermelha, por enquanto”, completa Ayato Kuikuro, agente de saúde indígena e tradutor do povo Kuikuro.

Próxima etapa do curso ficou marcada para maio de 2012

O próximo encontro está marcado para maio de 2012, no CTL Diauarum. Até lá, os participantes estarão desenvolvendo atividades em suas comunidades para trabalhar depois, no módulo presencial.

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