Xinguanos participam de feira de sementes tradicionais em aldeia kayapó

A I Feira Mebengokré de Sementes Tradicionais reuniu indígenas de 15 etnias diferentes para promover um intercâmbio entre os povos e fortalecer a cultura. O encontro aconteceu na aldeia Moikarakô, na Terra Indígena Kayapó, no Pará, entre os dias 3 e 7 de setembro

Por Dannyel Sá, ISA

Mulheres kayapó dançam na abertura do encontro. Foto: Marcelo Salazar/ISA

Com o intuito de promover um intercâmbio para fortalecer a cultura, a tradição, os laços entre os povos indígenas, sua autonomia e soberania alimentar por meio da circulação de plantas e sementes, os Kayapó realizaram a I Feira Mebengokré de Sementes Tradicionais, na aldeia Moikarakô, no Pará. Além das trocas de sementes, teve ainda mesas redondas, oficinas e apresentações culturais.

Cerca de mil indígenas, de mais de 30 aldeias kayapó, e voluntários não indígenas colaboraram para a realização da feira, organizada pela Associação Floresta Protegida. Outros 110 indígenas de 28 aldeias e 15 povos distintos do Brasil foram convidados e estiveram presentes, abrangendo quase todas as regiões do País.

Entre os convidados, dois povos do Parque Indígena do Xingu (PIX): os Kawaiwete, das aldeias Ilha Grande, Kwaryja, Capivara e Tuiararé, e os Kisêdjê, da aldeia Ngojhwere. Também estiveram presentes aproximadamente 100 representantes não indígenas de diversas organizações da sociedade civil e do governo que trabalham nesta temática.

Troca de sementes estimula o fortalecimento cultural dos indígenas. Foto: Dannyel Sá/ISA

Além das trocas de conhecimentos, técnicas, experiências, histórias, cantos, ritos e comidas, houve também mesas redondas sobre a conservação e o uso da agrobiodiversidade, políticas públicas ligadas à produção de alimentos, assistência técnica e extensão rural em área indígena e desafios e estratégias ante os grandes empreendimentos no entorno das Terras Indígenas.

A comitiva xinguana, junto com técnicos do ISA, encarregou-se de apresentar a experiência da Rede de Sementes do Xingu no PIX durante a mesa redonda que discutiu experiências produtivas para a geração de renda.

Experiência xinguana chama a atenção dos Kayapó. Foto: Rodrigo Junqueira/ISA

A experiência da Rede de Sementes do Xingu atraiu bastante atenção de todos os ouvintes, especialmente dos anfitriões. O coordenador adjunto do Programa Xingu, Rodrigo Junqueira, iniciou a apresentação dessa experiência resgatando o histórico de ocupação e produção agropecuária no entorno do PIX e a demanda das lideranças indígenas para a recuperação das nascentes do Rio Xingu, que desencadeou a “necessidade de ensinar o fazendeiro a plantar floresta” e, consequentemente a criação da Rede de Sementes do Xingu.

A coletora Kunhakate Kaiabi, da aldeia Tuiararé, neta do grande pajé Ipepori Kaiabi, reconhecido por todos os povos do PIX como incentivador do cultivo de sementes tradicionais da roça kaiabi, no território xinguano, falou sobre a importância da atividade para os povos do Xingu e das dificuldades inerentes.

Segundo ela, diferentemente dos fazendeiros, que dispõem de maquinário especializado para os plantios, o trabalho dos coletores é manual, árduo, mas compensatório, pois visa o reflorestamento das nascentes do rio cujo todos os povos do Xingu dependem.

Kunhakate Kaiabi fala sobre a importância do trabalho de coleta de sementes. Foto: Rodrigo Junqueira/ISA

Além dos povos Kawaiwete e Kisêdjê presentes neste evento, outras três etnias participam da Rede de Sementes do Xingu no PIX: os Waurá, os Ikpeng e os Yudjá. Fora do Parque, os Panará, da TI Panará, também participam.

Já a organização da atividade é algo bastante particular de cada comunidade. A diversidade cultural, estrutural e logística dos grupos de coleta influencia no trabalho e o maior desafio é superar os gargalos técnicos e burocráticos para garantir as pretensões de cada núcleo.

Luta por direitos

No último dia de discussões, o secretário Especial de Saúde Indígena, Antônio Alves, ouviu as reivindicações dos indígenas sobre as condições de atendimento médico nas Terras Indígenas Kayapó e nos distritos de saúde.

Os indígenas também discutiram sobre a Portaria 303, da Advocacia Geral da União (AGU), que proíbe a ampliação de Terras Indígenas e libera obras nessas áreas sem consultar as populações afetadas. Os debates resultaram em uma carta elaborada pelos indígenas dos 16 povos presentes, que foi entregue em Brasília à Fundação Nacional do Índio (Funai) e na Procuradoria Geral da República (PGR), pelo cacique Akjabôrô Kayapó.

A carta manifesta o repúdio ao Governo Federal pelos retrocessos sistemáticos relacionados aos povos indígenas e exige a revogação imediata da Portaria 303 da AGU, o abandono de quaisquer projetos de barragens nas Terras Indígenas, além de uma maior atenção do governo às atividades produtivas, a garantia de uma faixa de proteção genética no entorno das TIs, o tratamento digno de saúde e a inserção dos tratamentos tradicionais realizados pelos pajés no sistema público de saúde.

Para os participantes do encontro, a I Feira Mebengokré de Sementes Tradicionais foi importante para mostrar que apenas a união dos povos indígenas é capaz de reverter as situações adversas enfrentadas no presente.

8 Comentários

  • É uma vergonha que os primeiros habitantes destas terras e por tanto legítimos proprietários tenham que passar por isso.É o branco ganancioso,irresponsável e estúpido que deveria estar pedindo permissão para usar as terras!Lástimavel!!!!!!

  • O Pequi do Xingu, planta domesticada com muito amor pelos indios, deve ser espalhada pelo Brasil inteiro pelos indios, para que possamos saborear e valorizar.
    È fundamental esta troca de sementes, e elas devem ser também sobre oferecidas pelos indios aos brancos diretamente pelos indios, atravês de uma organização deles, pois senão elas acabam chegando por instituições de pesquisa ou outras pessoas que conseguem porque os indios são generosos.
    Não são iguais aos brancos, que juntão dinheiro para pagarem para limpar a bunda deles quando ficam velhos, rarara

  • Temos muito o que aprender com a cultura indígena, pois vocês convivem em respeito e harmonia com a mãe terra.

  • Coragem e orgulho pelo belo trabalho! Beleza pura! Compartilhei.

  • Isso é amor pela terra e pela comunidade, somando forças pelo bem de todos. Que o movimento se fortaleça, floresça e frutifique!!!

  • Tudo o que se refere a indígenas em nivel Brasil dev ser do interesse do povo brasileiro. Das tradições aos menors detelhes devem ser obsevados por todos.

  • Reafirmo interesse em tudo que diz respeito a indígenas. Peço que pessoas com o mesmo interesse contatem comigo para troca de idéias e fotos. OBRIGADO.

  • A CULTURA DE POVOS SUPERIORES , REFIRO – ME AOS POVOS INDÍGENAS , DEVE SER SEMPRE CULTUADA. A FEIRA DE SEMENTES É COMO – A FEIRA DA VIDA – , POIS SEMENTES REPRESENTAM VIDA E A CONTINUIDADE DE TODAS AS FORMAS DE VIDA DA BIODIVERSIDADE BOTÂNICA DE MINHA PÁTRIA – PYNDORAMA . . .
    PARABÉNS IRMÃOS . . .

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