Reflexões sobre o projeto Governança Florestal

Após o encerramento do projeto Governança Florestal convidamos alguns parceiros diretos e indiretos para fazer uma reflexão sobre esses quatro anos de projeto. A seguir, um breve histórico dessa empreitada antes das discussões sobre os avanços e desafios rumo à governança florestal.

Tudo começou em 2006, com a divulgação de um edital da União Europeia para financiamento de ações socioambientais no Brasil. O Instituto Socioambiental (ISA) mobilizou parceiros para elaborar o Governança Florestal nas Cabeceiras do Rio Xingu, que foi um dos principais projetos viabilizadores da campanha Y Ikatu Xingu, de proteção e recuperação das nascentes e matas ciliares do Xingu no Mato Grosso.

A iniciativa organizava-se em cinco eixos de atuação: planejamento territorial e gestão ambiental; recuperação de nascentes e matas ciliares; apoio à mobilização e organização comunitária; apoio à organização de médios e grandes proprietários e comunicação social. Aconteceu em 13 municípios da bacia, além de Lucas do Rio Verde.

Cinco entidades com atuação em Mato Grosso reuniram-se num consórcio para coordenar o projeto: além do ISA, participaram o Fórum Mato-Grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad), Instituto Centro de Vida (ICV), Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Lucas do Rio Verde (STR/LRV).

O projeto Governança Florestal alcançou resultados importantes:

Plantio mecanizado utilizando um vincón

• a restauração florestal de aproximadamente 2,4 mil hectares de Áreas de Preservação Permanente (APPs) degradadas até o fim do projeto – hoje, o número ultrapassa a marca dos 2,5 mil hectares. O projeto permitiu o desenvolvimento e aperfeiçoamento das técnicas de restauração florestal, como o plantio mecanizado de sementes – que utiliza o maquinário agrícola para plantar agroflorestas. Para isso, utiliza-se uma mistura de diversas espécies de sementes nativas, chamada muvuca, adaptada às características da região da Bacia do Xingu;

Crianças aprendem com o alfabeto ecológico

• investimento na educação agroflorestal, com parcerias com as escolas locais, formação de mais de 250 pessoas de forma direta e mil de forma indireta nos cursos de formação de Agentes Socioambientais, além dos processos de formação de lideranças Germinar. Na educação agroflorestal, o educador forma multiplicadores da ideia, mudando a imagem de que floresta é mato e para nada serve. A ideia foi tão bem absorvida em Canarana, por exemplo, que se criou a Agenda Socioambiental de Canarana, já incorporada ao calendário de ações oficiais do município;

Criança xavante coleta semente

• a estruturação da Rede de Sementes do Xingu, que hoje envolve mais de 300 famílias de coletores de sementes – entre indígenas, assentados e moradores das cidades – que colaboram para o desenvolvimento da geração de renda a partir da floresta na bacia. Até 2010, a rede gerou R$ 350 mil de renda para seus participantes – hoje, o número ultrapassa R$ 600 mil, além da criação de um Fundo Rotativo, que auxilia os coletores na aquisição de ferramentas para melhorar seu trabalho;

Professores durante encontro itinerante

• a formação de uma rede de educadores em prol da aplicação de iniciativas socioambientais, que começou a ser estruturada a partir de um encontro itinerante, realizado em 2011 para partilhar as experiências das escolas depois dos incentivos da Campanha Y Ikatu Xingu.

Conheça aqui alguns animadores da Campanha Y Ikatu Xingu:

BR-158

Abraão Vieira dos Santos é coletor da Rede de Sementes do Xingu e realiza diversas oficinas para novos coletores e comunidades interessadas no trabalho em municípios do eixo da BR 158. Morador do PA Brasil Novo, em Querência, ele é conhecido pela variedade de espécies de árvores plantadas em seu lote.

Eduardo Correia, gerente da Fazenda Rancho 60, no município de Bom Jesus do Araguaia, está empenhado nos trabalhos de restauração florestal de APPs na propriedade. Ele ajuda a desenvolver a técnica do plantio mecanizado de florestas e está articulando a formação de um núcleo de coleta de sementes em sua região.

Ingred Ramos Pereira, participante da primeira turma de agentes socioambientais, criou o projeto “Compostagem e vermicompostagem” na Escola Norberto Schwantes, em Canarana, MT, aprovado pelo Fundo de Pequenos projetos da Campanha Y Ikatu Xingu voltado a educadores em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA), Icatu Hartford seguros e a Secretaria de Agricultura e Meio Ambiente. O trabalho vem envolvendo alunos, funcionários e familiares além de outras escolas, postos de saúde de Canarana na tarefa de reciclar o lixo orgânico que é produzido dia após dia e ainda tem inspirado a criação de cartilhas e eventos, como apresentações de teatro e programas de rádio sobre o assunto.

XINGU

Kawire Ikpeng e Oreme Ikpeng são dois jovens indígenas participantes do Movimento Jovem Ikpeng (MJI), na aldeia Moygu, no Parque Indígena do Xingu. Eles trabalham com o resgate de culturas e espécies cultivadas tradicionalmente por seu povo e com o envolvimento de jovens da aldeia na preservação dos costumes e práticas tradicionais.

BR-163

Maria Maia é compositora e tem levado a sua música a toda a Amazônia através da Rádio Nacional. Agricultora e liderança em Peixoto de Azevedo, é presença garantida nos eventos que discutem a agroecologia na região da BR-163. Monitora do projeto Governança Florestal nas Cabeceiras do Xingu, promoveu junto ao poeta Ambrósio Pereira Carvalho reuniões e cursos que ajudam a comunidade a se organizar e cuidar melhor da sua terra.

Marçal Ribeiro coordenou um dos projetos Padeq (Projeto de Alternativa ao Desmatamento e Queimadas) na BR-163. Presidente da Aproger (Associação dos Produtores Rurais da Gleba Entre Rios), liderança do assentamento, é um dos que chamou seus amigos pra montar uma equipe de trabalho eficiente. A Aproger plantou mais de 40 mil mudas e movimentou sementes dentro e fora do assentamento. Marçal é apicultor e agrofloresteiro. Ele sabe que nas floradas da mata estão as boas colheitas de mel. A Aproger participa dos encontros sobre economia solidária que estão acontecendo na região da BR 163.

Para saber mais sobre o que aconteceu nesses quatro anos, leia o balanço do projeto no último boletim Governança Florestal.

A seguir, as reflexões sobre os momentos passados e um convite a pensar o futuro e os desafios da construção da governança florestal.

Os caminhos para a governança florestal

Governança Florestal: abrindo caminhos para a sustentabilidade

O elo (ainda) perdido na relação ONGs e governo

Avanços institucionais em prol da restauração de áreas degradadas em Mato Grosso

Lutas e conquistas dos trabalhadores na BR-163

Núcleos de mobilização da cidadania em defesa das águas

Inovação e escala no processo de restauração florestal nas cabeceiras do Xingu

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